Ele treina olhares e frases. Consegue carregar toda uma conversa, levada principalmente por uma, talvez duas, trocas de olhares em uma anedota, durante a qual em algum momento os dois se vêem, e ele lembra pra quem está contando.
Trocamos sorrisos.
Na infinidade da distância de dois lados de uma mesa, testa posições para seu braço. Acho que cotovelo na mesa não é mais falta de educação. Tudo evoluiu, porque não o estigma "cotovelo-na-mesa"?
Ele fica bem no meio. Separa os dois como um tratado colonial separa a Ilha de Vera Cruz.
Desse lado eu conto uma de minhas anedotas charmosas, evitando olhar direto nos seus olhos pra não perder a concentração. Quando olhar, tenho que ter certeza que é numa pausa, um momento em que ela se recupera de uma parte realmente engraçada, ou de um riso forçado. Mesmo assim, perde um pouco da concentração.
Dá pra ver tanto quando se olha no olho. Por exemplo: durante uma parte morna da história em que ele cria um pouco em cima do que realmente aconteceu, porque nessa parte, como num pedaço de texto aumentado, no qual originalmente nada se destacaria, ao olhar nos seus olhos percebe que ela estava pensando em outra coisa. Não tenta imaginar no quê. Ela pegou carona em seu olhar determinado a fazer dessa parte algo digno.
Disfarçou, olhou diretamente nos meus olhos e viu muito.Voltou a prestar atenção.
Mas isso já não importava mais.
Ela tinha perdido o interesse, e ele, a concentração.
A mesa que os separava dobrou de tamanho. A anedota perdeu o charme.
Eu não alcançava mais nem a linha do tratado que meu cotovelo demarcou.
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