Tuesday, October 28, 2008

À francesa

“E quanto isso tudo te custou? Os três, quatro dias no hospital?”
“Nada”
“Nada?”
“Nada....zero.”
“E isso, porquê..?”
“Eu...moro na França.”
“Você mora na França.”
“É”.
A Musica entra e imagens de pessoas francesas tomam a tela. Escuto muito focado a voz americana do narrador, sinto que ele vai atingir um ponto importante na sua história, sinto que ele realmente tem um bando de imagens fantásticas nesse seu filme, e sinto também que POW! PÈ, PÈ, PÈ, PÈ...
Olho pra janela. O que foi isso? Veio de fora. Nós quatro, que estávamos olhando constantemente para o narrador e seus entrevistados de voz americana e agora também francesa, olhamos um para os outros. Os franceses da tela param de tomar seus vinhos e fumar seus cigarros e olham para a janela, a nossa janela, invertendo a relação espectador-filme. Como nós, eles imaginam o que é o barulho que interrompeu o filme no qual estavam. Até o narrador muda sua atenção, e me pergunta o que aconteceu.
Nenhum deles pode ver o que está do outro lado, e nos olham curiosos. A única coisa a fazer é levantar e descobrir o que aquele barulho de onomatopéias “POW” e “PÉ, PÉ, PÉ” quer dizer.
Mais rápido que eu, meu amigo levanta e vê a rua. Ele está de tênis, eu, de meia.
O que ousou nos interromper às 3 da manhã do domingo, durante o filme de vozes americanas, foi uma pedra.
Jogada por um homem, a pedra teve a função de quebrar o vidro do carro que estava parado diretamente à frente do prédio, e que por acaso, era meu. Para meus amigos, para os franceses e para o narrador, eu me transformei no protagonista, e o filme se tornou um roubo de carro. O meu carro.
No meio das onomatopéias brasileiras, que seguramente para os franceses teriam outra escrita, meu amigo grita:
“PÈ, OU, PÉ, OU, PÉ, VAI, PÉ, VAI, PÉ, CUZÃO!”
E de repente o homem sai de dentro do meu carro, de mãos vazias e corre, prendendo seu chinelo havaianas com o dedão e o dedo-do-lado-do-dedão-que-não-tem-nome.
Desligo o alarme e o PÉ, PÈ, PÈ vira um rápido PÃ, PÂ, e cessa. Meço o estrago. Vidro quebrado, nada roubado. Se esse filme de roubo de carro tivesse mais espectadores, essa seria a hora que o interesse diminuiria, e os executivos do estúdio demandariam algum novo acontecimento.
Mas como eles tem reunião de manhã, já estão dormindo, e a platéia fica impaciente. “Amanhã você arruma!” gritam os mais enfadados.
Entro em casa e o olhar dos franceses e a voz do narrador me seguem. Eu me sento, e aperto o play. A musica entra de novo. A voz volta a seu tom normal.
“Ahh os franceses...eles tem os seus cigarros, seu vinho e suas comidas gordurosas, e mesmo assim, como os ingleses e os canadenses, eles vivem muito mais tempo do que nós americanos. Algo nisso me soa absurdamente injusto.”
Eles também não têm pedras atiradas nos vidros de seus carros igual a nós brasileiros.

E tudo se torna uma comédia de humor negro.

1 comment:

renato santoliquido said...

Bom blog , Fábio.

Gosto do jeito que você nomeia as coisas - principamente os dedos do pé.

Valeu,